Poemário do desterro - 2ª edição

Para obter a segunda edição do Poemário do desterro, que traz alguns poemas novos e outros revistos, clique aqui (livro em formato PDF).




Publicado no início de 2006, o livro foi lançado em uma pequena tiragem, não comercial, de cinqüenta exemplares numerados.
Abordado em uma resenha de André Seffrin na Gazeta Mercantil, Poemário do desterro recebeu também comentários favoráveis de poetas como Ruy Espinheira Filho e Ivan Junqueira, dentre outros.
Leia abaixo uma pequena seleção de poemas do livro.




A Dama da Lapa

Falaz madrugada:
vagando na rua
de espelhos tecida,
a dama vai, nua,
as coxas ungidas
na noite da Lapa.

Vai trôpega, exausta
dos anos vividos
nos sórdidos becos,
hotéis embebidos
dos negros segredos
da Lapa devassa.

Feraz madrugada:
nos becos, um leito
a dama faz. Freme:
traz no frágil peito
a agonia ingente
de saber-se amada.

Pranto claro

No fundo da favela há um pranto claro
que escorre, transparente, entre os barracos
e oculta-se nos trastes nos quintais.

No fundo da favela há um canto fraco
que chora um pranto tímido e alquebrado:
vã súplica aos silêncios sepulcrais

daqueles que, perdidos noutros lados,
não vêem que, entre as linhas dos jornais,
há um tímido e insistente pranto claro –

tão claro que ninguém o escuta mais.

Marinês

Marinês espera, à noite, nas esquinas,
por alguém que nunca chega, nem jamais
chegará – se quando o sol arrosta o beco

dele espanta os visitantes, qual formigas,
como a alguém confiará ela os segredos
se seu rosto só descobre à luz do dia?

Queda, espera – como faz há vinte anos
Marinês, que agora conta trinta e quatro,
mas só quatro ela viveu de desenganos:

toda puta fica esperta muito rápido.

Dentro da Noite
(de um conto de João do Rio)

I.

No cálice, a gota de sangue
bailava no leito de vidro.
No meio da noite emplumada,
a pálida dama de negro
trilava uma airosa risada
no quente terraço da Glória.

II.

Os lábios de Elisa feriam
a alvíssima pele enlevada
da que se amparava em seus braços:
os olhos felinos, rasgados
no rosto de triste boneca
buscavam Elisa. Chorava
a etérea e mais lívida musa
que os pés debatia, ferindo
a noite – treva aveludada.

III.

Bacante, feroz e faminta –
nas garras, a débil donzela
fremia – ruidosa felina
a se desfazer em gemidos;
as unhas na carne. Incontidos
sussurros e juras de amor –
Je t’aime, mon chéri... mon amour...
– desfeitos lençóis de loucuras;
e os lábios que os lábios tocaram
abriram-se, róseos, molhados
num inelutável suspiro.

IV.

O corpo deitado. Alvas mãos
de Elisa entre os áureos cabelos
que a noite da Glória douravam;
e um beijo no corpo gelado –
e a púrpura marca sagrando
o corpo da vítrea vestal.

V.

No cálice, a gota:
no cálice,
a gota mais rubra bailava,
no vidro,
uma valsa fatal.

E os risos de Elisa, enlevada,
que aos gritos, carpia a adorada
no leito dourado da Glória.

Na Final de 50

Barbosa, cabisbaixo, se levanta
e segue, a passos lentos, rumo à meta.

Caminha. Numa solidão de asceta,
não vê o mundo em volta. Só a bola

que, morta, jaz na rede, entorpecida.
Barbosa se levanta. Não vê nada,

mas ouve a multidão emudecida.

O Canto do Arlequim

Eu, trôpego Arlequim, te beijo e faço
meu leito nos teus lábios: vem, menina,
dormir nos braços desse que te ensina
a ser, viver e amar. Venha, que a chuva
que este teu corpo infante encharca e embebe
jamais há de lavar a áurea saliva
com que eu, na saturnal desta Avenida,
teus seios frescos cubro, e as coxas nuas...
Pra ti, altares ergo nestas ruas:
teu sátiro e consorte, eu, Arlequim,
te fiz, criança, a minha Colombina!

Confissão do Pierrô

Desencontrado, vivo. E tão perdido
quanto um desses soturnos foliões
que, ao ver em pó desfeitas as paixões
mais caras, de um só golpe o frágil siso

perdem. E seguem, trêmulos, com um riso
na máscara cavado... e as multidões,
berrando marchas, sambas e canções,
enganam... assim pensam. Sem aviso,

me atiro em meio à turba de insensatos,
coberto com douradas serpentinas
que envolvem minhas pernas, meus sapatos...

e sigo tropeçando. As Avenidas
percorro: eu, junto a tantos mascarados
que, como eu, nelas deixam suas vidas.

Na Mansão do Estácio

I.

Lacera a carne a cúpida chibata
e asperge a pele o jorro rubro e intenso.
De quatro – eqüina – geme a ofensa amada:
a máscara na cara oculta o extático
arroubo que na boca se anuncia.
Em volta, os Arlequins apaixonados
à cena assistem. Na mansão do Estácio,
o amor se esquiva à estranha luz do dia.

II.

No corpo a Colombina aceita o corte
que a faca do Arlequim, precisa, traça,
com a graça de um perverso carnaval.
Retorce o dorso. Geme. Assim, devassa,
em meio aos foliões, oferta o seio.
Perdida em meio às pânicas paixões,
faz-se em berço de Baco, apaixonada
não por alguém, mas pelo inato enleio.

III.

Lá fora da mansão, na noite fria
do Estácio, asceta, em sestra solidão,
triste, o Pierrô lamenta a negra sorte.
Na branca veste, fere-o, feito açoite,
a rósea marca – o beijo: a Colombina
ali deixou-o. Ouvindo sua consorte
fremir nas trevas, o Pierrô vacila:
não quer mais vê-la. Ansia, antes, a morte.

Quarta-Feira de Cinzas

E quando a Quarta-Feira enfim chegou
e em cinzas transformou toda a folia,
rasgou, despudorada, a fantasia
que tantos mascarados deslumbrou;

e quando a Quarta-Feira enfim chegou,
fingiu não ver o mais cinzento dia;
e, em meio à rua clara e tão vazia,
cantou marchinhas e canções de amor.

No corpo nu calou toda a tristeza:
deitou-se, doida de melancolia,
na cama de confetes da calçada.

Tigresa, fez da quarta-feira presa:
lançou-se, incontrolável, sobre o dia –
bebeu, sedenta e só, a madrugada.

A Pierrete (II)

Na calçada, Pierrete encontra a rosa
atirada pela amada Colombina.
Abre as mãos. Recolhe a flor. Serena, roça
suas pétalas, de orvalho umedecidas,
na alva face. Com enlevo e sem pudor,
sente o aroma da morena, doce e fresco,
Colombina, que se foi, tão inclemente,
em seu lábio deixando o sabor de um beijo
que a alma queima mais que o fogo mais ardente.

Pierrete aperta a rosa contra o seio
pubescente, e no seu rosto de menina,
no mais casto e carinhoso dos meneios,
colhe fios de água quente e cristalina.

Segundo Canto de Amor
a L. A.

És mar bravio. És mundo, imensidão,
em meu deserto, és luz do sol a pino:
és música que encanta. E este menino
a ti pertence; e em ti, é coisa pouca,
não mais do que um vestígio do que outrora
um homem se chamou. E nele, agora,
não há nada de homem, nem de fera:
há apenas uma turva e doce espera
por ti. E por teu corpo. E por tua alma:
Senhora, só teu beijo embebe e acalma
este homem que por ele implora, louco,
e tanto que seu canto é fraco e rouco.

Terceiro Canto de Amor
a L. A.

Perdido neste mar de rubras veias,
eu te percorro, feito um turbilhão:
dentro de ti. Teu corpo. Lauta e quente,
és toda a fértil terra onde vicejo,
voraz, revolto rio onde me afogo:
sou teu. E se me sagras com teus beijos,
já não me doma a dor ou o desespero,
e sim o amor que, se me fere e inferna,
me traz também a paz, serena e terna,
que me concede – em ti – repouso fero,
e me lacera, e acolhe, e me sepulta –

em ti: que és berço meu. Meu cemitério,
sou teu. Somente teu. Sem raiva ou luta,
sacrifiquei-me e fiz-me em teu Império.

Cantiga de Amigo V

Amigo já não tenho,
querida já não sou:
se vive meu senhor,
bem longe, me esqueceu.

Não quero mais cantiga,
nem tenho mais amor:
de tanto amar em vão,
meu coração morreu.

Balada do Bate-Bola

Bate-bola bate a bola,
sai da escola já montado,
mascarado, bate a bola
pronto pra assombrar o mundo:
faz das ruas o seu palco
vira-mundo bate-bola,
vence uma calçada, e outra,
só de um salto; a larga capa
lança, lesto, e ameaça
quem se mete em seu caminho;

Bate-bola bate a bola,
mas jamais parte sozinho:
tem seu bando o bate-bola,
mil e tantos mascarados,
clóvis multicoloridos
que, em impávidas passadas,
Avenidas, aguerridos,
fazem suas: bravas pátrias,
terras que – até Quarta Feira –
não serão mais de ninguém;

Bate a bola o bate-bola,
bate, sem saber a quem
intimida, o bate-bola,
pouco importa: nesta terra
muitos são os inimigos,
e, entre mortos e feridos,
se um qualquer inda restar,
também este o bate-bola
terá, forte, de enfrentar,
e o fará, seja quem for:

porque desconhece o medo
e o perigo o bate-bola.
Sob a máscara, ferino,
toda a dor ele suporta:
sabe da morte os segredos –
e, se morto, um dia volta.

Três Barcarolas (revisitadas)
a Stella Leonardos
(fragmento)

I

Na capela, sozinha, eu esperava
por aquele que outrora me adorava.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Na capela, esperava, enquanto o mar
sem demora, ansiava me abraçar.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Por aquele que outrora me adorava,
eu aguardava, e às águas me entreguei.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Sem demora, ansiava me abraçar
o alto mar. Na alva espuma me deitei.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Eu aguardava, e às águas me entreguei:
seus lábios me beijaram, tão salgados.
Esperando o meu amigo,
e virá?

O alto mar. Na alva espuma me deitei,
e do mar fiz o meu sempiterno amado.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Pastorinhas

A estrela d'alva no céu desponta
e, tonta, a pastora vagueia na rua.
Versos não tem. Canções, esqueceu,
desde que aquele que amava partiu.

Vai pela rua. E não vaga sozinha:
é só mais uma dentre as pastorinhas
que, para enlevo e consolo da lua,
todas as noites caminham, silentes,

como num bando de tímidas musas
que, de tão tristes – já que abandonadas –
na ânsia de serem amadas, frementes,
deram-se à estrela – morenas e nuas.