Leia abaixo uma pequena seleção de poemas do livro.
A Dama da LapaFalaz madrugada:
vagando na rua
de espelhos tecida,
a dama vai, nua,
as coxas ungidas
na noite da Lapa.
Vai trôpega, exausta
dos anos vividos
nos sórdidos becos,
hotéis embebidos
dos negros segredos
da Lapa devassa.
Feraz madrugada:
nos becos, um leito
a dama faz. Freme:
traz no frágil peito
a agonia ingente
de saber-se amada.
Pranto claroNo fundo da favela há um pranto claro
que escorre, transparente, entre os barracos
e oculta-se nos trastes nos quintais.
No fundo da favela há um canto fraco
que chora um pranto tímido e alquebrado:
vã súplica aos silêncios sepulcrais
daqueles que, perdidos noutros lados,
não vêem que, entre as linhas dos jornais,
há um tímido e insistente pranto claro –
tão claro que ninguém o escuta mais.
MarinêsMarinês espera, à noite, nas esquinas,
por alguém que nunca chega, nem jamais
chegará – se quando o sol arrosta o beco
dele espanta os visitantes, qual formigas,
como a alguém confiará ela os segredos
se seu rosto só descobre à luz do dia?
Queda, espera – como faz há vinte anos
Marinês, que agora conta trinta e quatro,
mas só quatro ela viveu de desenganos:
toda puta fica esperta muito rápido.
Dentro da Noite(de um conto de João do Rio)
I.
No cálice, a gota de sangue
bailava no leito de vidro.
No meio da noite emplumada,
a pálida dama de negro
trilava uma airosa risada
no quente terraço da Glória.
II.
Os lábios de Elisa feriam
a alvíssima pele enlevada
da que se amparava em seus braços:
os olhos felinos, rasgados
no rosto de triste boneca
buscavam Elisa. Chorava
a etérea e mais lívida musa
que os pés debatia, ferindo
a noite – treva aveludada.
III.
Bacante, feroz e faminta –
nas garras, a débil donzela
fremia – ruidosa felina
a se desfazer em gemidos;
as unhas na carne. Incontidos
sussurros e juras de amor –
Je t’aime, mon chéri... mon amour...– desfeitos lençóis de loucuras;
e os lábios que os lábios tocaram
abriram-se, róseos, molhados
num inelutável suspiro.
IV.
O corpo deitado. Alvas mãos
de Elisa entre os áureos cabelos
que a noite da Glória douravam;
e um beijo no corpo gelado –
e a púrpura marca sagrando
o corpo da vítrea vestal.
V.
No cálice, a gota:
no cálice,
a gota mais rubra bailava,
no vidro,
uma valsa fatal.
E os risos de Elisa, enlevada,
que aos gritos, carpia a adorada
no leito dourado da Glória.
Na Final de 50Barbosa, cabisbaixo, se levanta
e segue, a passos lentos, rumo à meta.
Caminha. Numa solidão de asceta,
não vê o mundo em volta. Só a bola
que, morta, jaz na rede, entorpecida.
Barbosa se levanta. Não vê nada,
mas ouve a multidão emudecida.
O Canto do ArlequimEu, trôpego Arlequim, te beijo e faço
meu leito nos teus lábios: vem, menina,
dormir nos braços desse que te ensina
a ser, viver e amar. Venha, que a chuva
que este teu corpo infante encharca e embebe
jamais há de lavar a áurea saliva
com que eu, na saturnal desta Avenida,
teus seios frescos cubro, e as coxas nuas...
Pra ti, altares ergo nestas ruas:
teu sátiro e consorte, eu, Arlequim,
te fiz, criança, a minha Colombina!
Confissão do PierrôDesencontrado, vivo. E tão perdido
quanto um desses soturnos foliões
que, ao ver em pó desfeitas as paixões
mais caras, de um só golpe o frágil siso
perdem. E seguem, trêmulos, com um riso
na máscara cavado... e as multidões,
berrando marchas, sambas e canções,
enganam... assim pensam. Sem aviso,
me atiro em meio à turba de insensatos,
coberto com douradas serpentinas
que envolvem minhas pernas, meus sapatos...
e sigo tropeçando. As Avenidas
percorro: eu, junto a tantos mascarados
que, como eu, nelas deixam suas vidas.
Na Mansão do EstácioI.
Lacera a carne a cúpida chibata
e asperge a pele o jorro rubro e intenso.
De quatro – eqüina – geme a ofensa amada:
a máscara na cara oculta o extático
arroubo que na boca se anuncia.
Em volta, os Arlequins apaixonados
à cena assistem. Na mansão do Estácio,
o amor se esquiva à estranha luz do dia.
II.
No corpo a Colombina aceita o corte
que a faca do Arlequim, precisa, traça,
com a graça de um perverso carnaval.
Retorce o dorso. Geme. Assim, devassa,
em meio aos foliões, oferta o seio.
Perdida em meio às pânicas paixões,
faz-se em berço de Baco, apaixonada
não por alguém, mas pelo inato enleio.
III.
Lá fora da mansão, na noite fria
do Estácio, asceta, em sestra solidão,
triste, o Pierrô lamenta a negra sorte.
Na branca veste, fere-o, feito açoite,
a rósea marca – o beijo: a Colombina
ali deixou-o. Ouvindo sua consorte
fremir nas trevas, o Pierrô vacila:
não quer mais vê-la. Ansia, antes, a morte.
Quarta-Feira de CinzasE quando a Quarta-Feira enfim chegou
e em cinzas transformou toda a folia,
rasgou, despudorada, a fantasia
que tantos mascarados deslumbrou;
e quando a Quarta-Feira enfim chegou,
fingiu não ver o mais cinzento dia;
e, em meio à rua clara e tão vazia,
cantou marchinhas e canções de amor.
No corpo nu calou toda a tristeza:
deitou-se, doida de melancolia,
na cama de confetes da calçada.
Tigresa, fez da quarta-feira presa:
lançou-se, incontrolável, sobre o dia –
bebeu, sedenta e só, a madrugada.
A Pierrete (II)Na calçada, Pierrete encontra a rosa
atirada pela amada Colombina.
Abre as mãos. Recolhe a flor. Serena, roça
suas pétalas, de orvalho umedecidas,
na alva face. Com enlevo e sem pudor,
sente o aroma da morena, doce e fresco,
Colombina, que se foi, tão inclemente,
em seu lábio deixando o sabor de um beijo
que a alma queima mais que o fogo mais ardente.
Pierrete aperta a rosa contra o seio
pubescente, e no seu rosto de menina,
no mais casto e carinhoso dos meneios,
colhe fios de água quente e cristalina.
Segundo Canto de Amora L. A.És mar bravio. És mundo, imensidão,
em meu deserto, és luz do sol a pino:
és música que encanta. E este menino
a ti pertence; e em ti, é coisa pouca,
não mais do que um vestígio do que outrora
um homem se chamou. E nele, agora,
não há nada de homem, nem de fera:
há apenas uma turva e doce espera
por ti. E por teu corpo. E por tua alma:
Senhora, só teu beijo embebe e acalma
este homem que por ele implora, louco,
e tanto que seu canto é fraco e rouco.
Terceiro Canto de Amora L. A.Perdido neste mar de rubras veias,
eu te percorro, feito um turbilhão:
dentro de ti. Teu corpo. Lauta e quente,
és toda a fértil terra onde vicejo,
voraz, revolto rio onde me afogo:
sou teu. E se me sagras com teus beijos,
já não me doma a dor ou o desespero,
e sim o amor que, se me fere e inferna,
me traz também a paz, serena e terna,
que me concede – em ti – repouso fero,
e me lacera, e acolhe, e me sepulta –
em ti: que és berço meu. Meu cemitério,
sou teu. Somente teu. Sem raiva ou luta,
sacrifiquei-me e fiz-me em teu Império.
Cantiga de Amigo VAmigo já não tenho,
querida já não sou:
se vive meu senhor,
bem longe, me esqueceu.
Não quero mais cantiga,
nem tenho mais amor:
de tanto amar em vão,
meu coração morreu.
Balada do Bate-BolaBate-bola bate a bola,
sai da escola já montado,
mascarado, bate a bola
pronto pra assombrar o mundo:
faz das ruas o seu palco
vira-mundo bate-bola,
vence uma calçada, e outra,
só de um salto; a larga capa
lança, lesto, e ameaça
quem se mete em seu caminho;
Bate-bola bate a bola,
mas jamais parte sozinho:
tem seu bando o bate-bola,
mil e tantos mascarados,
clóvis multicoloridos
que, em impávidas passadas,
Avenidas, aguerridos,
fazem suas: bravas pátrias,
terras que – até Quarta Feira –
não serão mais de ninguém;
Bate a bola o bate-bola,
bate, sem saber a quem
intimida, o bate-bola,
pouco importa: nesta terra
muitos são os inimigos,
e, entre mortos e feridos,
se um qualquer inda restar,
também este o bate-bola
terá, forte, de enfrentar,
e o fará, seja quem for:
porque desconhece o medo
e o perigo o bate-bola.
Sob a máscara, ferino,
toda a dor ele suporta:
sabe da morte os segredos –
e, se morto, um dia volta.
Três Barcarolas (revisitadas)a Stella Leonardos(fragmento)
I
Na capela, sozinha, eu esperava
por aquele que outrora me adorava.
Esperando o meu amigo,e virá?Na capela, esperava, enquanto o mar
sem demora, ansiava me abraçar.
Esperando o meu amigo,e virá?Por aquele que outrora me adorava,
eu aguardava, e às águas me entreguei.
Esperando o meu amigo,e virá?Sem demora, ansiava me abraçar
o alto mar. Na alva espuma me deitei.
Esperando o meu amigo,e virá?Eu aguardava, e às águas me entreguei:
seus lábios me beijaram, tão salgados.
Esperando o meu amigo,e virá?O alto mar. Na alva espuma me deitei,
e do mar fiz o meu sempiterno amado.
Esperando o meu amigo,e virá?PastorinhasA estrela d'alva no céu desponta
e, tonta, a pastora vagueia na rua.
Versos não tem. Canções, esqueceu,
desde que aquele que amava partiu.
Vai pela rua. E não vaga sozinha:
é só mais uma dentre as pastorinhas
que, para enlevo e consolo da lua,
todas as noites caminham, silentes,
como num bando de tímidas musas
que, de tão tristes – já que abandonadas –
na ânsia de serem amadas, frementes,
deram-se à estrela – morenas e nuas.